
Por Patricia Landim
Tremembé é uma série brasileira de ficção inspirada em acontecimentos na penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, localizada no interior de São Paulo e conhecida nacionalmente por abrigar detentos de grande repercussão midiática. A produção parte desse imaginário coletivo para construir uma narrativa densa, centrada nas relações de poder, nos conflitos psicológicos e na rotina do sistema prisional.
Mais do que contar histórias individuais, a série propõe um olhar clínico sobre o encarceramento, explorando as dinâmicas entre presos, agentes penitenciários e a própria instituição, que funciona como mais um personagem. O foco não está apenas nos crimes, mas nas consequências humanas, morais e emocionais que se desenrolam entre os muros.
Ao longo da série, surgem personagens inspirados em presos famosos que passaram pelo presídio de Tremembé (e alguns que ainda estão lá), cujos casos chocaram o Brasil e tiveram ampla divulgação na mídia. Como por exemplo, Suzane von Richthofen, os irmãos Cravinhos, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, entre outros.
A série reproduz essas histórias, baseada em fatos de acordo com os livros do jornalista, escritor e roteirista Ullisses Campbell, são eles: Suzane: assassina e manipuladora e Elize Matsunaga: a mulher que esquartejou o marido. No mês anterior à estreia da série na Amazon Prime, ele também lançou o livro Tremembé: O presídio dos famosos, com mais histórias.
A importância da locação da série Tremembé
Desde o início, Tremembé deixa claro que o espaço é fundamental para a construção do clima da série. A prisão não é apenas cenário: ela define o ritmo, a tensão e o comportamento dos personagens. Corredores, celas, áreas comuns e a constante sensação de vigilância reforçam o peso psicológico que atravessa cada episódio.
Essa relação entre espaço e narrativa também foi vivida de perto pelo escritor e um dos roteiristas da série, Ullisses Campbell. Em conversa com o site Pat entrou no mundo das séries, ele falou sobre a experiência de estar no Presídio de Tremembé real e depois acompanhar esse ambiente sendo recriado no set de filmagem. Campbell contou que frequenta as penitenciárias de Tremembé há cerca de dez anos. “Eu entrei lá a primeira vez em 2016 para entrevistar o ex-senador Luiz Estevão. Sempre achei o ambiente prisional, principalmente na época quando eu fazia as primeiras visitas, com uma energia muito carregada, um clima muito pesado”, relatou.
O escritor destacou que, quanto mais a galeria reúne criminosos que cometeram crimes bárbaros, mais intensa é essa sensação. “O que me surpreendeu é que, depois que o cenário de Tremembé foi construído, eu fiz uma visita e senti a mesma energia pesada. Não só por conta da semelhança, mas porque eu descobri depois que pessoas que foram presas lá estavam atuando como figurantes na série”, ressaltou Ullisses Campbell.
Embora a história seja inspirada em um local real, a produção criou um complexo cenográfico que permitisse maior controle artístico, técnico e narrativo, além de garantir segurança e liberdade criativa.
Celas, corredores e áreas de circulação
Observando as cenas, percebe-se que as celas foram construídas em escala real, com atenção minuciosa a detalhes como: paredes desgastadas e com marcas de umidade; portas de ferro pesadas, com trancas visíveis; iluminação pouco natural, reforçando a sensação de confinamento.
Além disso, percebe-se que os corredores do presídio cenográfico foram projetados para parecerem longos e opressivos. A repetição de portas, grades e cores frias cria um efeito visual que reforça a monotonia e a tensão do cotidiano carcerário. A profundidade dos corredores também favorece planos longos e movimentos de câmera que ampliam a sensação de vigilância constante.
Pátio e áreas comuns
O pátio também foi recriado em estúdio. Mesmo sendo um espaço aberto, ele mantém um aspecto fechado, cercado por muros altos e grades, reforçando a ideia de que a liberdade ali é apenas parcial e temporária. Refeitório, salas administrativas e áreas de revista completam o conjunto de cenários, todos pensados para manter coerência visual.
Quando se constrói um presídio em estúdio assim, acontece:
liberdade total de câmera e enquadramento;
repetição de cenas complexas sem limitações externas;
maior aprofundamento psicológico dos personagens, sem distrações visuais;
controle absoluto da estética e da continuidade visual.
Na série, o ambiente prisional é apresentado de forma dramatizada e simbólica, mas suas bases estão diretamente ligadas à realidade do Presídio de Tremembé. Ao sair da ficção e observar o local real, é possível perceber como a história, a estrutura e a reputação da penitenciária influenciaram a construção do universo da trama. A série se apropria desse imaginário coletivo para criar um espaço narrativo que dialoga com fatos conhecidos ou até então desconhecidos do público e amplia o impacto da narrativa ao ancorá-la em um dos presídios mais emblemáticos do Brasil.
Origem e função do presídio real
O Presídio de Tremembé foi inaugurado em 1955, no interior do estado de São Paulo. Ao longo das décadas, a unidade passou a ser associada a detentos condenados por crimes que chocaram o país. Essa característica fez com que Tremembé se tornasse um símbolo do sistema prisional brasileiro voltado a presos considerados de maior visibilidade pública. Atualmente, essa fama está sendo avaliada e reconsiderada pela gestão.
O complexo prisional de Tremembé é formado por unidades independentes, e não por um único presídio. Há separação total entre homens e mulheres, com unidades masculinas e femininas distintas, cada uma administrada de acordo com o regime de cumprimento de pena. Dentro dessas unidades, os internos são distribuídos entre regime fechado e semiaberto, em pavilhões específicos, com celas coletivas e setores de circulação controlada. A estrutura inclui ainda pátios para banho de sol, áreas destinadas a trabalho interno, atividades educacionais e atendimentos técnicos, o que permite organizar diferentes perfis de detentos e manter o funcionamento do sistema.
Dentre as unidades, há duas para mulheres: a Penitenciária Feminina I Santa Maria Eufrásia Pelletier pode abrigar mais de 300 detentas e a Penitenciária Feminina II, com capacidade para receber em torno de 700 condenadas. Já a Penitenciária II de Tremembé acabou sendo escolhida para receber mais de 580 homens.
A série Tremembé é um exemplo de como a locação, mesmo quando recriada, pode ser central para o sucesso de uma série. Ao optar por um presídio construído em estúdio, a produção conseguiu unir realismo, controle estético e intensidade dramática. O resultado é uma obra em que o ambiente não apenas abriga a história, mas a molda. Cada cela, corredor e pátio contribuem para transformar o espaço prisional em um elemento narrativo poderoso, reforçando o impacto da série e a experiência do espectador.
O site agradece a Ullisses Campbell pela disponibilidade em compartilhar sua experiência para este artigo.