
Por Patricia Landim
O livro Tremembé: o presídio dos famosos foi lançado em setembro de 2025, acompanhando o lançamento da série Tremembé, que chegou ao público em outubro do mesmo ano pelo streaming Amazon Prime. A obra dialoga com o universo construído pela série, que teve sua criação baseada nos livros Suzane: assassina e manipuladora e Elize Matsunaga: a mulher que esquartejou o marido. Esses dois trabalhos anteriores forneceram o material narrativo e investigativo que serviu de base para a construção da trama e de seus personagens.
Ullisses Campbell é jornalista investigativo e autor especializado em crimes de grande repercussão no Brasil, além de ser um dos roteiristas da série. Seu trabalho é marcado por apuração extensa, acesso a bastidores do sistema prisional e atenção às dinâmicas psicológicas envolvidas nos casos que acompanha. Ao longo da carreira, Campbell se consolidou como uma das principais referências na cobertura de crimes reais, e seus livros se destacam pela combinação entre rigor jornalístico e narrativa envolvente, características que também se refletem na adaptação para a televisão.
O livro Tremembé: a prisão dos famosos
O livro Tremembé: o presídio dos famosos acompanha e aprofunda as histórias de detentos que passaram pelo presídio e os que ainda estão lá, reconstruindo trajetórias pessoais, crimes, julgamentos e os desdobramentos da vida na prisão. Embora o Presídio de Tremembé funcione como pano de fundo comum, a obra se concentra nos relatos humanos e nas narrativas individuais que ganharam grande repercussão no país, além de histórias que não foram amplamente divulgadas até então.
Publicado em diálogo direto com a série Tremembé, o livro amplia o universo da produção ao reunir histórias reais que ajudam a contextualizar os personagens e conflitos apresentados na ficção. A obra se apoia em entrevistas, documentos e observação direta para mostrar como funciona o presídio, quem são seus internos mais e menos conhecidos e como a rotina carcerária se organiza.
Para o site, Ullisses Campbell revelou que, durante o processo de escrita do livro Tremembé, uma história acabou se tornando essencial para o fechamento da obra. Essa decisão veio após a leitura da carta de suicídio de um ex-procurador da República, um documento que ele descreve como extremamente emocionante. Inicialmente contada no meio do livro, a história foi deslocada para o final. Por se tratar de uma antologia, que ainda terá uma segunda parte, o autor buscava uma forma impactante de encerrar o volume.
Segundo Campbell, trata-se de um caso muito triste: um ex-procurador esfaqueou uma juíza, que sobreviveu ao ataque, mas ele não suportou as consequências públicas do crime e o impacto de ter sua reputação destruída. O jornalista explicou que o episódio ocorreu durante um surto psicótico, já que o homem era esquizofrênico.
Para o autor, esse episódio simboliza o sentido central da obra: “O livro mostra que qualquer um de nós pode parar lá em Tremembé. Basta ter um surto psicótico, dirigir alcoolizado, por exemplo. Esse fechamento alterou tudo. Aquelas histórias não estão muito distantes das pessoas comuns, que nunca pensaram em cometer um crime ou que não têm perfil de criminoso”.
Ponto de vista do leitor
Leitora dos livros de Ullisses Campbell, Luciana Borges Alves Pinto e Barros destacou uma das histórias mais perturbadoras do livro. “Em Tremembé, Ullisses Campbell narra o caso de uma mãe que deixou a própria filha morrer de fome. Não há monstros caricatos nem cenas espetaculares de violência. O terror está no cotidiano, no silêncio, no tempo que passa enquanto nada é feito”, afirmou. Para ela, o que mais causa espanto é justamente a ausência de ação da mãe: “A criança não morre de repente; ela vai desaparecendo aos poucos, enquanto a figura que deveria protegê-la escolhe não agir”.
Segundo a leitora, o horror da história está na ruptura de um laço humano básico. “A maternidade é social e simbolicamente associada ao cuidado, à proteção e à preservação da vida. Quando esse pacto é rompido, o que se revela não é apenas um crime, mas um abismo: a constatação de que o mal pode existir na forma da indiferença prolongada”, refletiu. Ela destacou ainda que não se trata de um ato impulsivo, mas de uma escolha contínua: “Todos os dias, a mãe vê a filha definhar. Todos os dias, decide não salvá-la”.
Luciana também ressaltou a forma como o autor conduz o relato. “Campbell trata o caso sem sentimentalismo, e isso torna tudo ainda mais perturbador. Fui forçada a encarar o fato cru: a morte por fome não é apenas física, é também simbólica. É a fome de cuidado, de presença, de reconhecimento da humanidade do outro. A criança morre porque foi deixada fora do campo do afeto e da responsabilidade”, disse.
Para ela, a história provoca um mal-estar profundo ao expor uma verdade incômoda: “Nem todo horror nasce da fúria; alguns nascem da frieza. Talvez o mais assustador seja perceber que o mal pode se instalar lentamente, dentro de casa, sustentado pela normalização do abandono”.
O livro Suzane: assassina e manipuladora
Neste livro, o autor investiga em profundidade o caso Suzane von Richthofen e dos irmãos Cravinhos, abordando detalhes da vida deles, o crime, os desdobramentos da condenação e o período de encarceramento.
A relevância dessa obra para a série está na forma como o livro retrata o ambiente prisional quando tem a presença de detentos que cometeram crimes de grande repercussão. O cotidiano dentro de Tremembé, as regras, a adaptação à rotina e as relações construídas no cárcere ajudam a compor personagens e situações que dialogam diretamente com a ambientação da produção audiovisual.
O livro Elize Matsunaga: a mulher que esquartejou o marido
Outro livro que inspira a série é Elize Matsunaga: a mulher que esquartejou o marido. Na obra, Ullisses Campbell reconstrói o caso Elize Matsunaga e acompanha sua trajetória no período em que esteve presa.
Assim como no livro sobre Suzane, o foco não está apenas no crime, mas no impacto da prisão sobre a personagem real. A descrição da rotina carcerária, das limitações impostas pelo espaço físico e da convivência com outras detentas contribui para o retrato mais amplo do sistema prisional que a série busca apresentar.
O escritor já lançou dois outros livros sobre assassinos: Flordelis, a pastora do diabo e Francisco de Assis, o maníaco do parque.
O livro Tremembé: a prisão dos famosos e as obras Suzane: assassina e manipuladora e Elize Matsunaga: a mulher que esquartejou o marido formam o alicerce narrativo da série. Juntos, eles mostram que Tremembé vai além da ficção: trata-se de uma história ancorada em investigação jornalística, observação do espaço prisional e compreensão profunda do impacto humano do cárcere. Essa base sólida é um dos fatores que tornam a série tão impactante, bem como as obras literárias.
O site agradece a Ullisses Campbell e à Luciana Borges pela disponibilidade em compartilhar suas experiências para este artigo.